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Quem vai querer ser professor nas próximas décadas?
QUEM VAI QUERER SER PROFESSOR NO BRASIL?
Prova Nacional Docente coloca a formação dos educadores em evidência, enquanto redução da presença de jovens no magistério acende alerta sobre renovação, valorização e futuro da carreira
O Brasil acaba de realizar mais uma edição da Prova Nacional Docente (PND), instrumento criado para subsidiar estados e municípios em seus processos de seleção de professores. A avaliação contempla formação geral docente e conhecimentos específicos de 21 áreas de licenciatura, e os gabaritos preliminares estão previstos para 24 de setembro.
A aplicação da prova, porém, coloca em evidência uma questão que ultrapassa qualquer exame: quem estará disposto a escolher a docência como profissão nas próximas décadas?
O questionamento ganha força diante dos dados apresentados pelo Instituto Semesp na segunda edição do estudo Apagão dos Professores: o desafio da renovação dos professores no Brasil. Segundo o levantamento, entre 2015 e 2025, o número de docentes com até 24 anos atuando no ensino médio caiu 31,1%. No mesmo período, houve crescimento de 104,5% entre professores com 60 anos ou mais.
Os números não significam, isoladamente, que o Brasil esteja diante de uma falta generalizada e imediata de professores. Mas apontam para um desafio estrutural que merece atenção: a renovação geracional do magistério.
Uma questão de entrada — e de permanência
Avaliar melhor quem ingressa na profissão é importante. Selecionar profissionais qualificados também.
Mas o desafio brasileiro não termina na porta de entrada.
É necessário saber quantos jovens desejam cursar licenciaturas, quantos concluem a formação, quantos efetivamente ingressam no magistério e, sobretudo, quantos permanecem na sala de aula depois dos primeiros anos de profissão.
Remuneração é parte importante dessa equação, mas não é a única.
Condições de trabalho, perspectiva de carreira, segurança no ambiente escolar, infraestrutura, formação continuada, autonomia profissional, saúde emocional e reconhecimento social também interferem na atratividade da docência.
O estudo do Semesp relaciona o desafio da renovação a fatores como desvalorização profissional, remuneração, sobrecarga e condições enfrentadas pelos docentes.
A questão, portanto, não deveria ser apenas:
“Temos professores suficientes hoje?”
Precisamos perguntar:
“Estamos formando e atraindo professores suficientes para amanhã?”
O professor da era da inteligência artificial
A discussão torna-se ainda mais relevante diante da transformação tecnológica.
A inteligência artificial já consegue produzir textos, responder perguntas, resumir conteúdos, traduzir idiomas e auxiliar estudantes em diferentes áreas do conhecimento.
Isso não elimina a importância do professor.
Pode torná-la ainda maior.
Em uma sociedade na qual informação estará disponível instantaneamente, o educador terá cada vez mais a responsabilidade de ajudar o estudante a distinguir informação de conhecimento, resposta de compreensão, opinião de evidência e conteúdo autêntico de manipulação.
A escola do futuro não poderá competir com a inteligência artificial simplesmente transmitindo informações.
Precisará ensinar a pensar.
Nesse ambiente, o professor deixa de ser apenas transmissor de conteúdo e ganha ainda mais importância como mediador, orientador e formador do pensamento crítico.
Exigimos muito. Oferecemos o suficiente?
A sociedade espera que o professor domine sua disciplina, compreenda tecnologia, trabalhe com inclusão, administre conflitos, dialogue com famílias, acompanhe dificuldades de aprendizagem, utilize novas metodologias e continue se atualizando.
Além disso, espera-se que ajude a formar cidadãos preparados para um mercado de trabalho em profunda transformação.
São expectativas legítimas.
Mas precisam ser acompanhadas por outra pergunta:
as condições oferecidas ao professor estão evoluindo na mesma velocidade das responsabilidades que atribuímos a ele?
Uma política nacional para valorização docente não pode ser reduzida a uma única variável.
Precisa combinar boa formação inicial, carreira, remuneração adequada, formação continuada, segurança, infraestrutura, tecnologia, gestão eficiente e reconhecimento profissional.
Professor também é infraestrutura nacional
O debate sobre desenvolvimento brasileiro costuma falar em rodovias, ferrovias, energia, telecomunicações, saneamento e, mais recentemente, data centers.
Tudo isso é infraestrutura.
Mas existe uma infraestrutura anterior a todas elas:
o conhecimento.
Não existe indústria tecnologicamente avançada sem profissionais qualificados.
Não existe inovação sem pesquisadores.
Não existe produtividade sustentável sem formação.
Não existe desenvolvimento científico sem educação.
E não existe educação básica de qualidade sem bons professores.
Por isso, discutir carreira docente não é apenas discutir política educacional.
É discutir economia, produtividade, inovação, competitividade e desenvolvimento nacional.
Quem ensinará o Brasil de 2040?
Talvez esta seja a pergunta que governos, universidades e sociedade deveriam começar a fazer com maior urgência.
Os profissionais que ensinarão crianças e adolescentes em 2040 precisam estar sendo atraídos e formados agora.
Alguns deveriam estar ingressando neste momento nas licenciaturas.
Outros estão começando sua trajetória profissional.
O país precisa saber se eles estão chegando.
E, principalmente, se encontrarão razões suficientes para permanecer.
A PND ajuda a responder uma questão importante:
quem possui os conhecimentos avaliados para ingressar na docência?
Mas nenhuma prova conseguirá responder sozinha à pergunta decisiva:
O BRASIL ESTÁ PREPARADO PARA VALORIZAR QUEM ESCOLHE ENSINAR?Esse debate precisa envolver governos, universidades, redes de ensino, professores, famílias e sociedade.
Porque uma eventual crise de renovação docente não começará quando faltar um professor diante de uma sala cheia de alunos.
Ela terá começado muitos anos antes — quando um jovem talentoso olhou para a profissão e decidiu seguir outro caminho.
ANÁLISE RCP NEWS
A Prova Nacional Docente representa uma tentativa de estabelecer referências comuns para a seleção de professores, mas seleção e retenção são problemas diferentes.
O Brasil precisa acompanhar indicadores de entrada, abandono e envelhecimento da profissão por disciplina e região, evitando generalizações. Ao mesmo tempo, precisa compreender por que jovens escolhem — ou deixam de escolher — o magistério.
O desafio estratégico não é apenas preencher vagas.
É tornar a docência suficientemente qualificada, respeitada e atraente para disputar bons profissionais com outras carreiras.
E isso exige planejamento de longo prazo.
“Ensinar é transmitir conhecimento. Inspirar é deixar legado. Mas nenhum país constrói legado se não cuidar daqueles a quem confia a formação das próximas gerações.”
Prof. Roque Cortes Pereira
Professor • Jornalista • Escritor
RCP NEWS
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