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O Brasil entre a queda dos homicídios e a permanência da violência

O Atlas da Violência 2026 mostra avanços importantes, mas também revela homicídios ocultos, desigualdades raciais, violência contra mulheres e o extermínio silencioso da juventude brasileira

Por Jornalista Prof. Roque Cortes Pereira

A violência não pode ser compreendida apenas pela contagem dos corpos. Ela também está presente no medo que modifica a rotina das famílias, na juventude que perde perspectivas, na mulher que não se sente segura dentro da própria casa, na criança que sofre em silêncio, na população negra que continua exposta a um risco desproporcional de morte e nos territórios em que o Estado chega tarde — ou simplesmente não chega.

O Atlas da Violência 2026, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), oferece um diagnóstico amplo e necessário sobre esse fenômeno. Em sua edição comemorativa de dez anos, o documento mostra que o Brasil conseguiu reduzir seus indicadores de violência letal na última década. Contudo, alerta que essa melhora não ocorreu de maneira homogênea e que parte da aparente redução pode estar relacionada à deterioração da qualidade dos registros.

Essa constatação impõe uma responsabilidade: não podemos comemorar estatísticas sem compreender o que existe por trás delas.

Uma redução que precisa ser analisada com cautela

Segundo os registros oficiais do Ministério da Saúde, o Brasil contabilizou 42.590 homicídios em 2024, correspondentes a uma taxa de 20,1 mortes para cada 100 mil habitantes. Em comparação com 2023, houve redução de 7,4% na taxa oficialmente registrada.

À primeira vista, trata-se de uma notícia positiva. O país permanece em uma trajetória de diminuição da violência letal iniciada em 2018, ainda que com oscilações. Entretanto, o próprio Atlas adverte que os números oficiais não revelam integralmente a dimensão do problema.

Em 2024, foram registradas 17.207 mortes violentas por causa indeterminada, isto é, casos em que não foi possível identificar adequadamente a motivação básica do óbito. O número representa crescimento de 23,8% em relação ao ano anterior. É uma deficiência grave, porque quando uma morte violenta não é corretamente esclarecida, ela deixa de integrar as estatísticas de homicídio, ainda que possa ter resultado de uma ação intencional.

A partir de metodologia estatística aplicada à reclassificação dessas ocorrências, o Atlas estima que o país tenha registrado, na realidade, 49.673 homicídios em 2024, alcançando uma taxa estimada de 23,4 mortes por 100 mil habitantes. Foram identificados aproximadamente 7.083 homicídios ocultos, número 88,6% superior ao do ano anterior.

Nesse cenário, a queda entre 2023 e 2024 não seria de 7,4%, mas de apenas 0,4%.

Essa diferença não é um detalhe técnico. Ela altera a compreensão da realidade e pode influenciar a elaboração de políticas públicas, a distribuição de recursos, o planejamento das forças de segurança e a própria avaliação dos resultados apresentados à sociedade.

Quando o Estado não consegue determinar como uma pessoa morreu, falha duas vezes: primeiro, na proteção da vida; depois, na produção da verdade.

Menos homicídios, mas maior sensação de insegurança

Um dos aspectos mais instigantes do Atlas da Violência 2026 é o contraste entre a redução histórica das taxas de homicídio e o crescimento da sensação de insegurança.

Esse aparente paradoxo pode ser explicado pela transformação da criminalidade. Durante muito tempo, o medo esteve associado principalmente ao assalto nas ruas, ao roubo de veículos e aos conflitos armados em determinados territórios. Hoje, a violência e o crime atravessam as portas das residências por meio dos celulares, dos aplicativos bancários, das redes sociais e das ferramentas digitais.

Entre 2018 e 2024, enquanto os roubos registrados caíram aproximadamente pela metade, os estelionatos — especialmente os virtuais — multiplicaram-se mais de cinco vezes. O criminoso não precisa mais estar fisicamente próximo de sua vítima. Pode agir de outra cidade, de outro estado ou até de outro país, utilizando engenharia social, perfis falsos, links maliciosos, clonagem de contas e manipulação emocional.

Ao mesmo tempo, o crime organizado deixou de atuar exclusivamente no tráfico de drogas e passou a penetrar em diferentes setores econômicos. Combustíveis, ouro, cigarros, bebidas, transporte, serviços clandestinos, crimes ambientais e fraudes digitais tornaram-se fontes relevantes de renda criminosa.

Essa expansão ameaça empresas legítimas, compromete mercados, corrompe instituições e desafia o Estado Democrático de Direito. A criminalidade organizada não pretende apenas vender produtos ilegais; em muitos territórios, procura controlar a economia, impor regras, explorar serviços e substituir a autoridade pública.

Portanto, reduzir homicídios é fundamental, mas já não é suficiente para assegurar à população a sensação de proteção.

A juventude continua sendo sacrificada

Talvez um dos dados mais dolorosos do relatório esteja relacionado à juventude brasileira.

Entre 2014 e 2024, 301.825 jovens de 15 a 29 anos foram assassinados no país, média aproximada de 75 mortes por dia. Somente em 2024, 19.801 jovens tiveram suas vidas interrompidas, atingindo a taxa de 42,2 homicídios por 100 mil habitantes. Considerando os homicídios ocultos, essa taxa sobe para 46,1.

Os jovens representaram 46,5% de todas as vítimas de homicídio registradas no Brasil em 2024.

Entre os mortos, 18.545 eram homens. Isso significa que, dos aproximadamente 54 jovens assassinados por dia, 51 eram do sexo masculino.

Não estamos falando apenas de vítimas individuais. Cada jovem assassinado representa uma família destruída, um projeto interrompido, uma trajetória educacional abandonada e uma contribuição social que jamais será realizada.

A violência retira do país justamente aqueles que se encontram na fase de maior capacidade produtiva, criativa e transformadora. O custo humano é irreparável; o custo social e econômico atravessa gerações.

É preciso compreender que a prevenção da violência juvenil começa muito antes da atuação policial. Começa na primeira infância, na estrutura familiar, na escola de qualidade, no acesso ao esporte, à cultura, à formação profissional, à saúde mental e às oportunidades reais de trabalho e renda.

A juventude não precisa apenas de vigilância. Precisa de pertencimento, dignidade, limites, referências positivas e perspectivas.

Violência tem cor no Brasil

O Atlas também reafirma uma realidade que o país ainda resiste em enfrentar: a violência letal possui um profundo componente racial.

Em 2024, foram assassinadas 32.820 pessoas negras, correspondentes a 77% do total de homicídios registrados. Isso significa que aproximadamente 90 pessoas negras foram assassinadas diariamente.

A taxa chegou a 27,3 mortes por 100 mil pessoas negras, enquanto entre a população não negra ficou em 10,1. Em outras palavras, uma pessoa negra teve 2,7 vezes mais chances de ser assassinada do que uma pessoa não negra.

Entre 2014 e 2024, o Brasil perdeu 435.551 pessoas negras para os homicídios. Embora tenha ocorrido redução da violência letal nos dois grupos, a queda foi menor entre negros. Enquanto os homicídios de pessoas não negras diminuíram 38,9%, a redução entre negros foi de 21,7%.

Esses números demonstram que até mesmo os benefícios da diminuição da violência são distribuídos de maneira desigual.

Não se trata de afirmar que cada homicídio tenha motivação racial direta. Trata-se de reconhecer que pobreza, segregação territorial, desigualdade educacional, ausência de serviços públicos, exposição ao crime organizado e fragilidade das redes de proteção incidem de forma mais intensa sobre a população negra.

Ignorar esse recorte significa ignorar a própria estrutura da violência brasileira.

A violência contra a mulher permanece dentro de casa

Em 2024, 3.642 mulheres foram assassinadas no Brasil, uma taxa oficial de 3,4 mortes por 100 mil mulheres. Entre 2014 e 2024, o país contabilizou 46.336 vítimas.

Embora a taxa tenha apresentado redução, o Atlas estima que, considerando possíveis homicídios ocultos, o indicador real possa alcançar 4,4 mulheres assassinadas por 100 mil habitantes do sexo feminino.

A violência contra a mulher apresenta uma característica especialmente cruel: muitas vezes, o perigo não está na rua, mas dentro da residência. O agressor pode ser alguém próximo, alguém em quem a vítima confiou ou de quem depende emocional ou financeiramente.

A situação é ainda mais grave para as mulheres negras. Em 2024, 2.457 mulheres negras foram assassinadas, representando 67,5% dos homicídios femininos. A taxa de homicídios entre elas foi 66,7% superior à verificada entre mulheres não negras.

O enfrentamento dessa violência não pode se limitar à punição depois da tragédia. É indispensável fortalecer medidas protetivas, delegacias especializadas, casas de acolhimento, canais de denúncia, autonomia financeira e acompanhamento das vítimas.

Também é necessário investir em educação para o respeito, para a cidadania e para relações afetivas saudáveis. A misoginia propagada em determinados ambientes digitais não é uma brincadeira inofensiva. Quando meninas e mulheres são sistematicamente desvalorizadas, humilhadas e tratadas como inferiores, cria-se um ambiente cultural que normaliza o assédio, o controle, a agressão e, em seu estágio extremo, o feminicídio.

Crianças protegidas hoje representam adultos mais seguros amanhã

O Atlas demonstra que a residência é o principal local de ocorrência da violência contra crianças: concentra 67,3% dos casos envolvendo crianças de zero a quatro anos e 65,9% entre aquelas de cinco a 14 anos.

Entre as vítimas de zero a quatro anos, quase 80% dos casos possuem autoria doméstica.

Esses dados desmontam a ideia de que a violência contra a infância é responsabilidade exclusiva das forças policiais. É necessária uma rede integrada envolvendo família, escola, saúde, assistência social, conselhos tutelares, sistema de Justiça e comunidade.

A escola ocupa uma posição estratégica. Mesmo quando a agressão não acontece no ambiente escolar, professores e profissionais da educação podem identificar alterações de comportamento, faltas recorrentes, sinais físicos, queda de rendimento, isolamento e pedidos silenciosos de ajuda.

Proteger a infância é uma das formas mais eficientes de romper ciclos de violência. Uma criança acolhida, educada e acompanhada possui maiores condições de desenvolver autocontrole, empatia, responsabilidade e confiança nas instituições.

Armas de fogo e a multiplicação da letalidade

Em 2024, 29.870 homicídios foram cometidos com armas de fogo, o equivalente a 70,1% de todos os assassinatos registrados no país.

Ainda que tenha ocorrido redução em comparação com anos anteriores, as armas de fogo continuam funcionando como grandes multiplicadoras da letalidade. Discussões, conflitos interpessoais, violência doméstica e disputas territoriais tornam-se muito mais mortais quando existe uma arma disponível.

Uma política responsável de segurança pública deve enfrentar o tráfico de armas, fortalecer o rastreamento de munições, ampliar a integração das bases de dados e responsabilizar quem abastece organizações criminosas.

O debate não deve ser conduzido por paixões ideológicas, mas por evidências. Uma sociedade segura é aquela em que o Estado exerce controle eficiente sobre instrumentos capazes de produzir mortes em massa.

Segurança pública não se faz apenas com viaturas e prisões

O Brasil precisa abandonar a falsa escolha entre repressão e prevenção. Um Estado responsável deve realizar as duas coisas.

É indispensável investigar, prender e desarticular organizações criminosas. Também é necessário garantir inteligência policial, integração entre União, estados e municípios, valorização dos profissionais da segurança, modernização das perícias e melhoria na elucidação dos homicídios.

Mas nenhuma política será sustentável se o país continuar formando territórios marcados pelo abandono, pela evasão escolar, pela ausência de oportunidades e pela presença cotidiana do crime.

Uma estratégia nacional consistente precisa considerar pelo menos oito prioridades:

  • melhoria urgente da qualidade dos registros de mortalidade e esclarecimento das mortes violentas;
  • integração de dados entre saúde, segurança pública, Justiça e assistência social;
  • fortalecimento da investigação e da perícia criminal;
  • prevenção direcionada aos territórios e grupos mais vulneráveis;
  • proteção integral às mulheres, crianças, adolescentes, idosos e demais populações expostas;
  • enfrentamento financeiro e patrimonial das organizações criminosas;
  • educação digital e combate aos crimes cibernéticos;
  • ampliação do esporte, da cultura, da educação e da qualificação profissional como instrumentos permanentes de prevenção.

Não se trata de romantizar a criminalidade nem de negar a necessidade de autoridade. Ao contrário: autoridade legítima é aquela que atua com firmeza, inteligência, legalidade e capacidade de prevenção.

A vida deve ser o centro da política pública

O Atlas da Violência 2026 mostra que o Brasil avançou, mas deixa claro que não há espaço para triunfalismo.

A redução dos homicídios representa uma conquista que precisa ser preservada e aprofundada. Entretanto, homicídios ocultos, falhas nos registros, desigualdades raciais, violência de gênero, vitimização juvenil, expansão do crime organizado e crescimento dos delitos digitais revelam que o desafio permanece gigantesco.

Segurança pública não pode ser tratada apenas em períodos eleitorais ou depois de grandes tragédias. Precisa ser uma política permanente de Estado, baseada em dados, continuidade administrativa, integração institucional e participação social.

Cada número apresentado no relatório carrega uma história que foi interrompida. Por trás de cada estatística existe um nome, uma família, um sonho e uma ausência que jamais será completamente preenchida.

A verdadeira medida do desenvolvimento de uma nação não está somente na riqueza que produz, mas na capacidade que possui de proteger a vida, preservar a dignidade e oferecer esperança aos seus cidadãos.

Reduzir a violência exige mais do que combater o crime. Exige combater as condições que permitem que ele prospere. Exige presença do Estado, responsabilidade das famílias, compromisso das instituições, ética na comunicação e mobilização de toda a sociedade.

Porque a paz não nasce do silêncio imposto pelo medo. A paz verdadeira nasce da justiça, da educação, da oportunidade, do respeito e da coragem coletiva de não aceitar nenhuma vida como descartável.

Prof. Roque Cortes Pereira
Jornalista, professor, escritor e fundador do RCP News
“Disciplina é Liberdade.”

Fonte de referência: Atlas da Violência 2026 — Ipea e Fórum Brasileiro de Segurança Pública, com dados principalmente do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde.

Direto da Redação RCP News

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