RCP News · Acervo
A eleição pode ser decidida por quem não quer participar da guerra
A eleição pode ser decidida por quem não quer participar da guerra
O eleitor cansado da polarização talvez esteja menos interessado em vencer uma batalha ideológica e mais preocupado em saber quem conseguirá resolver os problemas reais do Brasil
A eleição presidencial de 2026 continua sendo apresentada, em grande parte, como mais um capítulo da guerra política brasileira.
De um lado, uma parte do país se organiza em torno da defesa do atual governo. De outro, uma parcela expressiva se mobiliza em torno da oposição liderada pelo campo bolsonarista. Entre esses dois polos, há disputa de narrativas, memória, rejeição, identidade, medo, esperança, acusação, propaganda e intensa mobilização digital.
Mas existe um dado que merece atenção especial.
Pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta segunda-feira mostra que Lula recuperou pequena vantagem numérica contra Flávio Bolsonaro em simulação de segundo turno, embora a disputa permaneça tecnicamente empatada. Mais importante para esta análise: um recorte da mesma pesquisa aponta que 19% dos brasileiros não apoiam nem rejeitam automaticamente Lula ou Flávio Bolsonaro. Nesse grupo menos polarizado, as principais preocupações são concretas: saúde pública aparece em primeiro lugar, com 40%; segurança pública, violência e criminalidade vêm em seguida, com 31%; e educação aparece com 20%.
Esse eleitor pode não ser barulhento.
Pode não dominar as redes sociais.
Pode não participar de militâncias digitais.
Pode não produzir memes.
Pode não transformar cada notícia em trincheira.
Mas talvez esteja dizendo algo decisivo:
o Brasil real está cansado de guerra. O Brasil real quer resposta.
A eleição fora da bolha
O ambiente político brasileiro foi capturado, em larga medida, pela lógica da guerra permanente.
Tudo vira lado.
Tudo vira ataque.
Tudo vira prova de fidelidade.
Tudo vira motivo para desqualificar o adversário.
Nesse ambiente, o cidadão é pressionado a escolher não apenas um candidato, mas uma identidade de combate. A política deixa de ser espaço de solução e passa a funcionar como território de pertencimento emocional.
Mas existe uma parcela do eleitorado que não se encaixa integralmente nessa lógica.
É o eleitor que quer saber quando conseguirá marcar uma consulta.
É a mãe que se preocupa com a segurança do filho voltando da escola.
É o trabalhador que quer entender se o salário vai chegar até o fim do mês.
É o pequeno empresário que precisa de crédito, previsibilidade e menos burocracia.
É o professor que deseja condições reais de ensinar.
É o jovem que não quer herdar apenas conflitos, mas oportunidades.
É o cidadão que talvez não esteja apaixonado por nenhum dos polos, mas sabe exatamente quais problemas afetam sua vida.
Esse eleitor não deve ser tratado como indeciso desinformado.
Muitas vezes, ele é apenas pragmático.
Ele quer menos espetáculo e mais entrega.
A polarização grita. A realidade cobra.
A polarização tem uma característica: ela faz muito barulho.
Ela domina debates.
Ela mobiliza militâncias.
Ela rende cortes de vídeo.
Ela alimenta algoritmos.
Ela transforma frases em munição.
Mas a realidade tem outra característica: ela cobra todos os dias.
A fila da saúde não espera a briga acabar.
A violência não espera a campanha terminar.
A escola fraca não espera o próximo ciclo eleitoral.
A inflação não pede licença para corroer renda.
O endividamento não respeita discurso.
A falta de saneamento, moradia, segurança, transporte, emprego qualificado e educação básica não desaparece porque um grupo venceu uma disputa narrativa.
A vida cotidiana é mais exigente que a propaganda.
Por isso, a pergunta central da eleição não deveria ser apenas:
quem vencerá?
A pergunta mais importante é:
quem conseguirá governar os problemas reais do Brasil?
Saúde: a prioridade que atravessa ideologias
O fato de a saúde pública aparecer como principal preocupação entre os eleitores menos polarizados não surpreende.
Saúde é onde o cidadão encontra o Estado de maneira direta, urgente e, muitas vezes, dolorosa.
Quando falta atendimento, não há narrativa que console.
Quando a consulta demora, não há propaganda que resolva.
Quando um exame não sai, quando uma cirurgia é adiada, quando uma família precisa escolher entre pagar remédio ou pagar conta, a política deixa de ser abstração.
Ela vira experiência concreta.
Por isso, o debate eleitoral deveria exigir dos candidatos muito mais que promessas genéricas.
É preciso perguntar:
Como reduzir filas?
Como financiar a atenção básica?
Como integrar União, estados e municípios?
Como usar tecnologia sem desumanizar o atendimento?
Como formar e fixar profissionais de saúde?
Como medir resultado?
Quanto custa cada promessa?
O eleitor pragmático não deveria aceitar apenas a frase “vamos melhorar a saúde”.
Ele deveria exigir plano, prazo, orçamento, gestão e indicador.
Segurança: o medo também vota
A segurança pública aparece logo em seguida entre as prioridades desse grupo menos polarizado.
Esse dado revela outro aspecto importante: o medo cotidiano tem peso político enorme.
Não se trata apenas de estatística criminal.
Trata-se de sensação de vulnerabilidade.
Medo no transporte.
Medo no comércio.
Medo no bairro.
Medo na porta de casa.
Medo de perder o filho para o crime.
Medo de trabalhar e não voltar.
Segurança pública é uma das áreas em que slogans costumam ser mais perigosos. De um lado, há discursos simplistas que prometem resolver violência apenas com endurecimento. De outro, há discursos abstratos que ignoram a urgência vivida pela população.
O país precisa de uma abordagem mais séria.
Combate ao crime organizado.
Inteligência policial.
Integração federativa.
Tecnologia.
Valorização das polícias.
Controle de fronteiras.
Sistema prisional.
Prevenção.
Urbanismo.
Educação.
Oportunidades para jovens.
Justiça eficiente.
Segurança não se resolve com frase de efeito.
Resolve-se com Estado funcionando.
Educação: a raiz silenciosa da eleição
Educação aparece como terceira prioridade entre esses eleitores menos polarizados. E talvez seja a mais estrutural de todas.
Saúde e segurança cobram urgência.
Educação cobra futuro.
Um país que não ensina bem condena gerações a empregos piores, menor produtividade, baixa renda, vulnerabilidade à manipulação e pouca capacidade de inovação.
A educação está por trás da produtividade.
Está por trás da cidadania.
Está por trás da segurança.
Está por trás da saúde preventiva.
Está por trás da tecnologia.
Está por trás da democracia.
Em tempos de inteligência artificial, a educação ganha ainda mais importância. A escola não pode terceirizar o pensamento para a máquina. Precisa formar leitura, escrita, raciocínio, autoria, discernimento, verificação de fontes e capacidade de aprender continuamente.
O candidato que falar de educação apenas como promessa simbólica estará abaixo da gravidade do momento.
O Brasil precisa saber:
como alfabetizar na idade certa?
Como formar professores?
Como reduzir evasão?
Como conectar ensino técnico e mundo do trabalho?
Como usar IA com responsabilidade?
Como medir aprendizagem real?
Como transformar educação em produtividade nacional?
Educação não é pauta de campanha apenas para agradar professores.
É estratégia de desenvolvimento.
O eleitor cansado pode ser o eleitor decisivo
Em uma disputa tecnicamente empatada, pequenos deslocamentos eleitorais podem definir o resultado.
Por isso, o eleitor menos polarizado não é periférico.
Pode ser central.
Ele talvez não decida com base em lealdade partidária.
Talvez decida por desempenho.
Por confiança.
Por rejeição menor.
Por percepção econômica.
Por promessa mais crível.
Por capacidade de resolver problemas.
Por medo do risco.
Por esperança de estabilidade.
Por desejo de mudança sem ruptura.
Por desejo de continuidade com correção de rota.
Esse eleitor pode ser menos ideológico, mas não é menos exigente.
Ao contrário: pode ser justamente aquele que obriga a política a sair do teatro da guerra e voltar para a agenda da gestão.
A campanha precisa responder a problemas, não apenas atacar adversários
A polarização favorece campanhas negativas.
Atacar mobiliza.
Demonizar une a própria base.
Transformar o adversário em ameaça reduz o espaço para debate programático.
Mas uma eleição presidencial deveria ser o momento mais importante para discutir o funcionamento do país.
O Brasil precisa de perguntas objetivas aos candidatos:
Qual é seu plano para reduzir filas na saúde?
Como financiará suas propostas?
O que fará contra o crime organizado?
Como melhorará a educação básica?
Como reduzirá juros sem perder controle inflacionário?
Como estimulará produtividade?
Como enfrentará a desigualdade regional?
Qual será a política para inteligência artificial, dados e soberania digital?
Como fortalecerá as instituições sem concentrar poder?
Como medirá resultados nos primeiros 100 dias, no primeiro ano e ao final do mandato?
Campanha que não responde a essas perguntas está oferecendo ruído quando o país precisa de caminho.
O papel do jornalismo: tirar a eleição da trincheira
O jornalismo tem responsabilidade decisiva neste momento.
Ele pode apenas reproduzir a guerra.
Ou pode organizar o debate público.
Pode transformar cada fala em escândalo.
Ou pode perguntar o que aquela fala significa para a vida do cidadão.
Pode perseguir viralização.
Ou pode construir compreensão.
Pode medir apenas quem subiu e quem caiu.
Ou pode perguntar por que o eleitor está escolhendo, rejeitando ou hesitando.
O RCP News tem uma oportunidade editorial clara: cobrir a eleição não apenas como disputa de poder, mas como disputa de soluções.
Isso exige um método.
Para cada promessa, perguntar:
Qual problema pretende resolver?
Qual diagnóstico sustenta a proposta?
Quanto custa?
Quem executa?
Qual prazo?
Qual indicador mede sucesso?
O que já foi tentado antes?
Quais riscos existem?
Essa é a diferença entre jornalismo de campanha e jornalismo de profundidade.
Um projeto editorial possível: Brasil que Precisa Funcionar
A partir desse eixo, o RCP News poderia lançar uma série especial:
Brasil que Precisa FuncionarCinco grandes temas:
Saúde.
Segurança.
Educação.
Emprego e renda.
Custo de vida.
Para cada tema, o mesmo modelo:
O problema real.
Os números.
O que os candidatos prometem.
O que especialistas dizem.
Quanto custaria.
Como medir resultado.
O que o cidadão deveria cobrar depois da eleição.
Essa série teria uma vantagem importante: falaria diretamente com o eleitor cansado da guerra, mas ainda interessado no futuro do país.
Não seria neutra por omissão.
Seria responsável por método.
O Brasil precisa trocar a pergunta
A política brasileira está acostumada a perguntar:
De que lado você está?
Mas talvez o eleitor menos polarizado esteja fazendo outra pergunta:
Quem vai resolver?
Essa troca muda tudo.
Ela desloca o debate da identidade para a entrega.
Da briga para a gestão.
Da propaganda para o resultado.
Do ataque para a política pública.
Da emoção para a responsabilidade.
Não significa desprezar valores, história, ideologia ou projeto de país. Tudo isso importa.
Mas significa lembrar que o cidadão comum não vive dentro de uma planilha eleitoral nem dentro de um estúdio de debate.
Ele vive na fila da saúde.
No ônibus.
Na escola pública.
No comércio do bairro.
Na insegurança da rua.
No aluguel.
No financiamento.
No preço do alimento.
No trabalho.
Na família.
É ali que a eleição será sentida.
E talvez seja ali que ela será decidida.
Conclusão
A eleição pode ser decidida por quem não quer participar da guerra.
Não porque esse eleitor seja indiferente.
Mas porque está cansado de uma política que muitas vezes fala mais sobre si mesma do que sobre os problemas do país.
O Brasil não precisa de menos debate.
Precisa de melhor debate.
Não precisa de menos política.
Precisa de política mais responsável.
Não precisa de menos paixão cívica.
Precisa de paixão acompanhada de verdade, método e compromisso com resultado.
Se 19% do eleitorado não se encaixa automaticamente nos dois grandes polos, isso não deve ser lido apenas como espaço para estratégia eleitoral. Deve ser lido como um chamado à maturidade democrática.
Há brasileiros dizendo, direta ou indiretamente:
falem menos de guerra e mais de saúde.
Falem menos de inimigos e mais de segurança.
Falem menos de narrativa e mais de educação.
Falem menos de poder e mais de serviço.
Talvez esse seja o recado mais importante do momento.
Uma democracia se fortalece quando a política volta a servir à vida real.
E o jornalismo cumpre sua missão quando ajuda o cidadão a separar barulho de solução.
“A boa política começa quando o debate deixa de perguntar apenas quem vencerá e passa a perguntar quais problemas serão realmente resolvidos.”
RCP News — Jornalismo de profundidade. Inteligência que gera transformação.
Professor Roque Cortes Pereira
Educador, jornalista, escritor e mestre em formação humana
Disciplina é Liberdade.