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A DEZ DIAS DA ELEIÇÃO, O ELEITOR PRECISA DE MÉTODO — NÃO DE TORCIDA
Em uma campanha marcada por disputas emocionais, vídeos recortados, inteligência artificial e acusações instantâneas, votar com responsabilidade exige comparar propostas, verificar informações e compreender quem está preparado para governar.
Por Prof. Roque Cortes Pereira — Editor-fundador do RCP News
A dez dias das eleições, o Brasil entra no período mais sensível da campanha. É quando o debate público se acelera, as emoções se intensificam e mensagens construídas para provocar medo, indignação ou entusiasmo passam a disputar cada segundo da atenção do eleitor.
O primeiro turno das Eleições Gerais de 2026 será realizado em 4 de outubro, das 8h às 17h, pelo horário de Brasília. Mais de 155 milhões de brasileiros estão aptos a participar da escolha dos representantes que ocuparão alguns dos cargos mais importantes da República.
Neste momento decisivo, a política corre o risco de ser tratada como campeonato. Candidatos são transformados em times, adversários passam a ser vistos como inimigos e qualquer questionamento pode ser interpretado como traição.
Mas uma eleição não existe para premiar torcidas.
Ela existe para entregar poder, orçamento, representação e responsabilidade pública a pessoas que tomarão decisões capazes de afetar a vida de milhões de brasileiros.
O eleitor não precisa abandonar suas convicções. Precisa submetê-las ao método.
Votar exige mais do que identificação
Ter preferência política é legítimo. O problema começa quando a preferência impede o eleitor de analisar fatos, reconhecer erros ou questionar promessas.
Escolher com responsabilidade significa comparar propostas concretas, examinar a trajetória dos candidatos, conhecer suas alianças, compreender as atribuições do cargo e verificar se aquilo que está sendo prometido pode realmente ser executado.
Também significa desconfiar de propostas que não apresentam custos, prazos, prioridades ou fontes de recursos.
Popularidade não é sinônimo de competência. Agressividade não representa necessariamente liderança. Repetição não transforma uma afirmação em verdade. E um vídeo com milhares de compartilhamentos não se converte automaticamente em prova.
Nas eleições de 2026, cada cidadão fará seis escolhas na urna:
- deputado federal;
- deputado estadual ou distrital;
- senador — primeira vaga;
- senador — segunda vaga;
- governador e vice-governador;
- presidente e vice-presidente da República.
Portanto, não se trata de uma única decisão. O eleitor ajudará a formar diferentes centros de poder, responsáveis por governar, legislar, fiscalizar, representar os estados e decidir sobre o futuro do país.
A campanha na era da inteligência artificial
A responsabilidade do eleitor tornou-se ainda maior diante da circulação de conteúdos manipulados, imagens descontextualizadas, áudios fabricados e vídeos produzidos por inteligência artificial.
As regras das Eleições de 2026 determinam a identificação de determinados conteúdos produzidos ou alterados por IA, proíbem o uso de deepfakes na propaganda eleitoral e estabelecem mecanismos para combater informações falsas ou gravemente descontextualizadas.
A tecnologia pode ampliar o acesso ao conhecimento, facilitar a comunicação e aproximar candidatos e cidadãos. Entretanto, também pode fabricar uma aparência de realidade capaz de enganar até pessoas experientes.
Antes de compartilhar qualquer conteúdo eleitoral, o cidadão deveria fazer cinco perguntas básicas:
- Quem publicou essa informação?
- Qual é a fonte original?
- A declaração está completa ou foi retirada de contexto?
- A imagem, o áudio ou o vídeo podem ter sido alterados?
- Outros veículos ou fontes independentes confirmaram o fato?
A velocidade não pode substituir a verificação.
Minha Visão
A política precisa voltar a ser examinada como responsabilidade pública, e não apenas como espetáculo permanente.
Meu compromisso, como professor e jornalista, não é dizer ao eleitor em quem votar. É defender que ninguém entregue seu voto sem investigar propostas, trajetórias, valores, alianças e capacidade de realização.
Pensamento independente não significa ausência de posição. Significa ter coragem para construir uma posição que possa ser sustentada diante dos fatos.
O voto consciente não nasce de uma neutralidade absoluta, praticamente impossível em qualquer ser humano. Nasce da disposição de confrontar as próprias preferências com evidências, critérios e consequências.
Democracia não exige que todos pensem da mesma maneira. Exige que cada cidadão compreenda o peso de sua escolha.
Por Trás do Legado
Ao longo da vida como professor, jornalista, gestor, dirigente e sensei, aprendi que decisões importantes não devem ser tomadas no calor da provocação.
No dojô, um movimento impensado abre espaço para o erro.
Na gestão, uma decisão sem planejamento compromete pessoas, recursos e resultados.
Na educação, uma resposta pronta pode impedir o desenvolvimento do pensamento crítico.
Na política, um voto sem reflexão pode produzir consequências que atravessam gerações.
O legado de uma pessoa não é formado somente por aquilo que ela afirma defender. Ele também é construído pelas escolhas que faz quando ninguém está decidindo em seu lugar.
Ensinar é Deixar Legado
Ensinar o eleitor a formular boas perguntas é mais democrático do que lhe entregar respostas prontas.
Antes de confirmar o voto, vale aplicar sete critérios:
- A proposta apresenta um problema real, uma solução possível e uma forma de execução?
- A trajetória do candidato é compatível com aquilo que ele promete?
- As promessas pertencem verdadeiramente às atribuições do cargo disputado?
- Há explicação sobre custos, orçamento, prioridades e prazos?
- As informações utilizadas na campanha foram confirmadas em fontes confiáveis?
- O candidato demonstra respeito às instituições, às leis e ao direito ao contraditório?
- A escolha contribui apenas para um grupo ou apresenta benefícios concretos para a sociedade?
Essas perguntas não eliminam as diferenças ideológicas. Elas qualificam o processo de decisão.
O eleitor precisa recuperar o controle
Nos próximos dias, as campanhas tentarão aumentar o volume, intensificar a emoção e reduzir debates complexos a frases de poucos segundos.
O eleitor precisa fazer o movimento contrário: diminuir o ruído, ampliar o critério e recuperar o controle sobre a própria decisão.
Isso exige buscar fontes oficiais, consultar mais de um veículo de comunicação, comparar programas de governo, conhecer o histórico dos candidatos e evitar compartilhar conteúdos apenas porque confirmam aquilo em que já se deseja acreditar.
A Justiça Eleitoral disponibiliza informações sobre candidaturas, legislação, segurança da urna, pesquisas e mecanismos para comunicar possíveis casos de desinformação. O cidadão pode e deve utilizar esses recursos antes de formar uma conclusão.
Informação não serve apenas para confirmar convicções. Serve também para corrigi-las.
Não escolha apenas contra alguém
Uma das armadilhas da polarização é transformar o voto exclusivamente em uma manifestação de rejeição.
É legítimo considerar aquilo que o eleitor não deseja para o país. Mas uma escolha responsável também precisa responder positivamente a algumas perguntas: qual projeto merece confiança? Quem possui condições de executá-lo? Quais compromissos serão cobrados depois da eleição?
Votar apenas contra alguém pode produzir uma decisão emocional. Votar por critérios permite acompanhar, fiscalizar e cobrar quem for eleito.
A democracia não termina quando a urna é fechada. O voto inaugura uma responsabilidade que deve continuar durante todo o mandato.
Conclusão
A dez dias da eleição, o volume da campanha aumentará. O critério do eleitor também precisa crescer.
Não escolha apenas pela frase mais impactante, pelo vídeo mais compartilhado, pela promessa mais atraente ou pelo adversário que deseja derrotar.
Escolha considerando o país que pretende ajudar a construir.
O voto não é uma manifestação de torcida. É uma autorização para governar.
E toda autorização concedida em uma democracia precisa nascer da consciência, da informação e da responsabilidade.
“Quando a política pede paixão sem reflexão, o cidadão precisa responder com consciência, método e responsabilidade.”
Prof. Roque Cortes Pereira
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