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A campanha começa — e a responsabilidade também

Editorial

A campanha começa — e a responsabilidade também

A campanha eleitoral de 2026 começa oficialmente neste domingo, e com ela se abre um dos períodos mais importantes da vida democrática brasileira.

A partir de agora, milhões de cidadãos passarão a receber diariamente discursos, anúncios, vídeos, jingles, entrevistas, pesquisas, recortes, promessas, críticas, comparações, ataques, apoios, memes, mensagens em grupos de WhatsApp, conteúdos patrocinados e publicações impulsionadas nas redes sociais.

A campanha não estará apenas nas ruas.

Estará no celular.

Estará nas plataformas digitais.

Estará nos grupos de família.

Estará nos vídeos curtos.

Estará nas lives.

Estará nos cortes de entrevistas.

Estará nos áudios encaminhados.

Estará nos conteúdos produzidos com inteligência artificial.

E é justamente por isso que a responsabilidade de todos aumenta.

Vivemos uma época em que a informação se espalha com velocidade impressionante. Em poucos segundos, uma mensagem pode sair de um pequeno grupo e alcançar milhares de pessoas. Uma imagem pode emocionar. Um vídeo pode revoltar. Um áudio pode parecer convincente. Uma frase retirada de contexto pode destruir reputações. Uma mentira bem produzida pode parecer mais verdadeira do que a própria verdade.

Na era da inteligência artificial, ver não significa necessariamente acreditar.

Ouvir não significa necessariamente confirmar.

Receber não significa necessariamente saber.

Compartilhar não significa necessariamente informar.

O desafio do eleitor será cada vez menos encontrar conteúdo político e cada vez mais distinguir o que é fato, o que é propaganda, o que é opinião e o que é manipulação.

Essa distinção será decisiva.

Fato é aquilo que pode ser demonstrado, verificado, documentado e confrontado com fontes confiáveis.

Propaganda é tentativa legítima de convencimento, desde que identificável, dentro das regras e sem enganar o cidadão.

Opinião é interpretação, preferência, análise ou julgamento pessoal.

Manipulação é quando se distorce, esconde, fabrica ou desloca uma informação para induzir alguém ao erro.

A democracia convive com opinião. Convive com crítica. Convive com divergência. Convive com debate duro. Convive com propaganda. Mas nenhuma democracia saudável sobrevive por muito tempo quando a manipulação se torna método.

Por isso, antes de compartilhar qualquer conteúdo político, o cidadão precisa fazer perguntas simples e poderosas:

Quem produziu essa informação?

Qual é a fonte?

A data está correta?

O vídeo está completo ou foi recortado?

A imagem é real?

O áudio foi confirmado?

Há documento?

Há outra fonte confiável dizendo a mesma coisa?

Quem ganha com a circulação desse conteúdo?

Essa prudência não é fraqueza. É maturidade democrática.

Ter posição política é legítimo. Defender ideias é saudável. Apoiar candidatos faz parte do processo democrático. Mas permitir que a própria convicção seja alimentada por mentira é entregar a consciência a uma máquina de manipulação.

O eleitor responsável não é aquele que não tem lado. É aquele que, tendo lado ou preferência, não abre mão da verdade.

A política precisa de paixão, mas também precisa de limite.

Precisa de entusiasmo, mas também de honestidade.

Precisa de militância, mas também de consciência.

Precisa de disputa, mas também de respeito aos fatos.

Uma eleição não pode ser tratada como guerra em que tudo vale. Quando tudo passa a valer, a primeira vítima é a verdade. A segunda é a confiança. A terceira é a democracia.

Os candidatos e partidos também têm uma responsabilidade enorme. Disputar o poder é legítimo, mas não autoriza enganar o eleitor. Criticar adversários faz parte da vida pública, mas fabricar acusações, distorcer dados, usar imagens falsas ou explorar medo de forma irresponsável empobrece o debate nacional.

O Brasil precisa discutir projetos.

Precisa comparar propostas.

Precisa perguntar como cada candidatura pretende enfrentar juros, emprego, segurança, educação, saúde, moradia, infraestrutura, empreendedorismo, tecnologia, meio ambiente, terceiro setor, inclusão e desenvolvimento regional.

O país não pode ser reduzido a slogans.

O eleitor não pode ser tratado como alvo de manipulação emocional.

E o debate público não pode ser sequestrado por algoritmos, robôs, cortes maliciosos ou conteúdos produzidos para inflamar, dividir e confundir.

Nesse cenário, o jornalismo terá uma missão ainda mais exigente.

A imprensa não pode entrar na campanha como torcida.

Deve entrar como serviço público.

O papel do jornalismo não é substituir o eleitor, mas oferecer a ele melhores condições para decidir. Isso exige apuração, contexto, transparência e equilíbrio. Exige ouvir lados diferentes, verificar dados, explicar regras, corrigir erros e aplicar o mesmo padrão de rigor a todos os candidatos.

Credibilidade não combina com conveniência.

Não se pode exigir provas de um lado e aceitar boatos do outro.

Não se pode chamar de denúncia aquilo que ainda é apenas acusação.

Não se pode transformar opinião em notícia.

Não se pode publicar um recorte como se fosse a totalidade dos fatos.

Não se pode correr atrás da viralização e abandonar a responsabilidade.

Na campanha de 2026, cada veículo sério precisará assumir um compromisso claro com o leitor: publicar apenas aquilo que possa sustentar, separar fato de opinião, identificar conteúdo patrocinado, explicar pesquisas com responsabilidade, contextualizar declarações e tratar a inteligência artificial como ferramenta de apoio — jamais como substituta da apuração humana.

A tecnologia pode ajudar o jornalismo a organizar dados, transcrever entrevistas, resumir documentos e identificar padrões. Mas a responsabilidade editorial continua sendo humana.

É o jornalista quem responde pela escolha da pauta.

É o editor quem responde pela manchete.

É o veículo quem responde pela credibilidade do que publica.

E é o público quem decide em quem confiar.

Por isso, a credibilidade será o maior patrimônio desta eleição.

Maior do que alcance.

Maior do que velocidade.

Maior do que engajamento.

Maior do que visualizações.

Porque alcance sem confiança é barulho.

Velocidade sem verificação é risco.

Engajamento sem responsabilidade é manipulação.

Visualização sem verdade é apenas espetáculo.

O jornalismo de profundidade precisa resistir à tentação do imediatismo. Precisa compreender que, em tempos de excesso de informação, o seu valor não está apenas em informar primeiro, mas em informar melhor.

Informar melhor significa explicar.

Significa verificar.

Significa contextualizar.

Significa assumir correções.

Significa reconhecer limites.

Significa não transformar incerteza em certeza apenas para produzir impacto.

A campanha começa, mas a responsabilidade não é apenas dos candidatos, das plataformas, dos tribunais ou dos jornalistas. Ela também é de cada cidadão.

Cada pessoa que recebe uma mensagem tem uma escolha.

Pode compartilhar imediatamente ou verificar antes.

Pode alimentar a raiva ou buscar contexto.

Pode espalhar desconfiança sem prova ou procurar informação confiável.

Pode ser instrumento de manipulação ou guardião da responsabilidade.

Em uma democracia, o voto é individual. Mas a qualidade do ambiente informacional é coletiva.

Quando alguém compartilha uma mentira, não prejudica apenas o adversário político. Prejudica a sociedade inteira. Enfraquece a confiança pública. Polui o debate. Afasta o cidadão da realidade. E torna mais difícil a construção de soluções para os problemas concretos do país.

O Brasil tem desafios enormes pela frente.

Não podemos desperdiçar a campanha apenas com gritos, cortes e ataques.

Precisamos discutir desenvolvimento.

Precisamos discutir educação.

Precisamos discutir produtividade.

Precisamos discutir segurança pública.

Precisamos discutir inovação.

Precisamos discutir moradia.

Precisamos discutir saúde.

Precisamos discutir envelhecimento, juventude, trabalho, renda, tecnologia, esporte, cultura e inclusão.

Precisamos perguntar não apenas quem quer vencer, mas quem está preparado para governar.

A democracia começa no direito de escolher, mas se fortalece quando essa escolha é feita com informação, consciência e responsabilidade.

As urnas são fundamentais. Mas a democracia também depende do caminho que leva até elas.

Depende da qualidade das informações que circulam.

Depende da maturidade dos cidadãos.

Depende do compromisso dos candidatos.

Depende da seriedade das instituições.

Depende da independência da imprensa.

Depende da coragem de dizer: isso é fato; isso é opinião; isso é propaganda; isso é manipulação.

Nas eleições de 2026, a grande disputa não será apenas por votos.

Será também pela confiança da sociedade.

E confiança não se conquista com truques. Conquista-se com verdade, coerência e responsabilidade.

A campanha começa.

E com ela começa também um teste coletivo de maturidade democrática.

Que o eleitor questione mais.

Que os candidatos respeitem mais.

Que as plataformas sejam mais transparentes.

Que as instituições sejam firmes.

Que o jornalismo seja responsável.

E que o Brasil compreenda que nenhuma vitória eleitoral vale o preço da destruição da confiança pública.

Porque uma democracia não se sustenta apenas com campanhas.

Sustenta-se com verdade, consciência, liberdade e responsabilidade.

Frase do dia

“A democracia começa no direito de escolher e se fortalece quando essa escolha é feita com informação, consciência e responsabilidade.”

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Jornalismo de profundidade. Inteligência que gera transformação.

Professor Roque Cortes Pereira
Educador, jornalista, escritor e mestre em formação humana
Disciplina é Liberdade.

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