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84 MILHÕES DE BRASILEIROS NO VERMELHO
84 MILHÕES DE BRASILEIROS NO VERMELHO
Quando metade de um país adulto convive com dívidas em atraso, o problema deixa de ser apenas financeiro. Torna-se econômico, social, educacional e político.
Há números que informam.
E há números que exigem uma reação.
A dimensão da inadimplência brasileira pertence à segunda categoria. Quando dezenas de milhões de cidadãos convivem com contas atrasadas e dificuldades para reorganizar a própria vida financeira, já não estamos diante apenas de um problema entre credores e devedores.
Estamos diante de um problema nacional.
Por trás de cada CPF negativado existe uma história.
Há a família que perdeu renda.
O trabalhador que precisou recorrer ao cartão para comprar alimentos.
O pequeno empresário que misturou as contas pessoais com as da empresa para manter as portas abertas.
O aposentado que comprometeu parte relevante de sua renda com crédito.
A mãe que parcelou uma emergência.
O jovem que recebeu seu primeiro cartão antes mesmo de aprender como funcionam juros compostos.
E também existem, evidentemente, escolhas equivocadas, consumo sem planejamento e ausência de disciplina financeira.
Reduzir tudo isso a uma única explicação seria intelectualmente confortável — e socialmente irresponsável.
O Brasil democratizou o acesso ao crédito. Mas democratizou o conhecimento financeiro?
Nas últimas décadas, o sistema financeiro brasileiro passou por uma extraordinária transformação.
Bancos digitais ampliaram a concorrência.
Fintechs reduziram barreiras de entrada.
O Pix revolucionou os pagamentos.
A tecnologia colocou uma agência bancária inteira dentro do telefone.
Milhões de brasileiros passaram a ter acesso a serviços financeiros que antes eram caros, burocráticos ou simplesmente inacessíveis.
Foi uma transformação importante.
Mas existe uma diferença fundamental entre bancarização e saúde financeira.
Ter uma conta não significa saber administrar dinheiro.
Ter cartão não significa compreender o custo do crédito rotativo.
Receber limite não significa possuir renda suficiente para utilizá-lo.
Conseguir empréstimo em alguns minutos não significa que aquele empréstimo seja economicamente saudável.
E renegociar uma dívida não significa que o problema que a produziu tenha desaparecido.
O Brasil avançou enormemente na infraestrutura do crédito.
Talvez não tenha avançado na mesma velocidade na infraestrutura do conhecimento.
Crédito não é renda
Essa talvez seja uma das lições econômicas mais importantes — e menos ensinadas.
Limite não é renda.
Empréstimo não é patrimônio.
Parcelamento não torna um produto mais barato.
Renegociação não apaga o custo de uma dívida.
Crédito é uma ferramenta.
Bem utilizado, antecipa oportunidades, financia empresas, permite adquirir uma casa, investir em educação, comprar equipamentos e atravessar emergências.
Mal utilizado, antecipa consumo presente comprometendo renda futura.
O problema surge quando o crédito deixa de ser instrumento de planejamento e passa a funcionar como complemento permanente da renda.
Nesse momento, começa um ciclo perigoso:
a renda termina antes do mês;
o cartão completa a renda;
a fatura não é integralmente paga;
os juros aumentam a dívida;
um novo empréstimo paga o anterior;
a renegociação reduz a parcela, mas prolonga o compromisso;
e a família passa a trabalhar cada vez mais para pagar decisões financeiras tomadas no passado.
É uma espécie de aprisionamento econômico silencioso.
A inadimplência também cobra juros emocionais
Existe ainda uma dimensão que raramente aparece nas estatísticas econômicas.
A dívida não permanece apenas na planilha.
Ela entra dentro de casa.
Afeta relacionamentos.
Adia projetos.
Aumenta conflitos familiares.
Compromete decisões profissionais.
Produz insegurança.
Em casos mais graves, transforma-se em fonte permanente de ansiedade e sofrimento.
Por isso, superendividamento não deve ser analisado exclusivamente como problema bancário.
É também uma questão de qualidade de vida.
Uma sociedade financeiramente fragilizada possui menor capacidade de poupar, investir, empreender e planejar o futuro.
O pequeno empreendedor também está no vermelho
Existe outra face dessa crise que merece atenção.
No Brasil, a fronteira entre as finanças da família e as finanças do pequeno negócio frequentemente é muito tênue.
Quando falta capital de giro, entra o cartão pessoal.
Quando uma venda atrasa, utiliza-se o cheque especial.
Quando aparece uma emergência, o empreendedor recorre ao próprio limite.
O problema pessoal transforma-se em empresarial.
E o empresarial volta para dentro de casa.
Isso ajuda a explicar por que educação financeira deveria caminhar junto com educação empreendedora.
Não basta ensinar alguém a abrir uma empresa.
É necessário ensinar fluxo de caixa, formação de preço, reserva financeira, crédito, margem, tributação e separação patrimonial.
Empreender sem compreender números pode transformar liberdade econômica em vulnerabilidade financeira.
Renegociar é necessário. Prevenir é indispensável.
Programas de renegociação possuem importância.
Para uma família sufocada por juros e multas, recuperar condições de pagamento pode significar a possibilidade concreta de recomeçar.
Mas o Brasil precisa tomar cuidado para não construir uma política pública baseada num ciclo permanente:
endividar → inadimplir → renegociar → voltar a endividar.
Isso administra a consequência.
Não enfrenta suficientemente a causa.
A política pública mais eficiente será aquela que conseguir reduzir a quantidade de pessoas que precisarão da próxima renegociação.
Isso exige atuação em várias frentes.
Educação financeira desde a escola.
Transparência absoluta sobre juros e custo efetivo total.
Crédito concedido de acordo com a capacidade real de pagamento.
Combate a práticas abusivas.
Concorrência bancária.
Proteção ao consumidor superendividado.
Orientação financeira acessível.
Estímulo à poupança.
Formação para pequenos empreendedores.
E responsabilidade individual.
Porque também seria equivocado retirar do cidadão qualquer responsabilidade sobre suas decisões.
Educação financeira significa justamente ampliar a capacidade de escolha consciente.
E há um novo personagem nessa história: as apostas
O problema ganhou outra dimensão nos últimos anos.
O telefone que contém o banco também contém o cartão, o comércio eletrônico, o crédito instantâneo e as plataformas de apostas.
Dinheiro tornou-se quase invisível.
Não entregamos uma cédula.
Não vemos fisicamente aquilo que saiu da carteira.
Basta tocar numa tela.
Essa facilidade tecnológica representa enorme avanço, mas também reduz algumas das barreiras psicológicas que historicamente existiam entre o desejo e o gasto.
Por isso, a discussão sobre endividamento precisa incorporar também economia comportamental, publicidade digital, apostas e proteção de consumidores vulneráveis.
A tecnologia tornou o consumo mais rápido.
A educação precisa tornar a decisão mais consciente.
Uma pergunta inevitável na eleição de 2026
Estamos a poucos dias de escolher presidente, governadores, senadores e representantes no Congresso Nacional.
Portanto, a dimensão do endividamento brasileiro deveria produzir uma pergunta objetiva aos candidatos:
QUAL É O PLANO PARA O BRASILEIRO ENDIVIDADO?E a resposta não deveria se limitar a:
“vamos renegociar”.
É preciso perguntar:
Como reduzir o custo do crédito?
Como estimular concorrência?
Como prevenir o superendividamento?
Como melhorar a educação financeira?
Como proteger consumidores vulneráveis?
Como tratar o impacto das apostas sobre o orçamento familiar?
Como ampliar crédito produtivo para pequenos negócios sem alimentar novas dívidas?
Como fazer a redução da Selic chegar efetivamente às famílias e empresas?
Como criar uma cultura nacional de poupança e planejamento?
São perguntas concretas.
E são exatamente as perguntas que uma campanha eleitoral deveria enfrentar.
O RCP News não precisa dizer ao cidadão em quem votar.
Precisa ajudá-lo a fazer perguntas melhores.
Menos corrida eleitoral. Mais problemas reais.
Existe uma tendência do jornalismo político de transformar eleição numa corrida de cavalos.
Quem subiu.
Quem caiu.
Quem ultrapassou.
Quem ganhou o debate.
Quem viralizou.
Quem atacou quem.
Pesquisas são importantes. Estratégias eleitorais também.
Mas nenhuma delas pode ocupar o espaço reservado à discussão sobre o país que existirá depois da apuração dos votos.
No dia seguinte à eleição, as famílias continuarão recebendo faturas.
Os juros continuarão existindo.
As empresas continuarão precisando de crédito.
Os brasileiros continuarão pagando prestações.
E milhões ainda precisarão reorganizar sua vida financeira.
É justamente aí que o jornalismo de profundidade se diferencia do ruído cotidiano.
A eleição não deveria ser coberta apenas perguntando:
“Quem está na frente?”
Precisamos perguntar:
“Quem apresenta propostas consistentes para enfrentar os problemas que estão à nossa frente?”
84 milhões não podem ser apenas uma estatística
Por trás de um número dessa magnitude existem milhões de histórias.
Existem sonhos adiados.
Empresas que não nasceram.
Casas que não foram compradas.
Cursos que não começaram.
Famílias que perderam capacidade de planejamento.
Pessoas que trabalham e, ainda assim, não conseguem sair do passado financeiro.
Transformar essa realidade exige mais que crédito.
Exige conhecimento, responsabilidade, planejamento, disciplina e políticas públicas eficientes.
O Brasil realizou uma revolução tecnológica no sistema financeiro.
Agora precisa realizar uma revolução educacional na relação das pessoas com o dinheiro.
Porque verdadeira inclusão financeira não acontece quando todos conseguem crédito.
Acontece quando cada vez mais pessoas conseguem construir patrimônio, formar reserva, investir, empreender e viver com dignidade sem permanecer permanentemente dependentes dele.
Essa deveria ser uma agenda nacional.
Da escola.
Das famílias.
Dos bancos.
Das fintechs.
Das empresas.
Do Banco Central.
Do Congresso.
Do próximo governo.
E também de cada cidadão.
Porque liberdade econômica começa muito antes de possuir dinheiro.
Começa por compreender como utilizá-lo.
“Crédito pode antecipar sonhos. Educação, planejamento e disciplina impedem que esses sonhos sejam pagos com a liberdade do amanhã.”
Prof. Roque Cortes Pereira
Professor • Jornalista • Empresário • Escritor
Disciplina é Liberdade.
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